Clara

Clara, born in Brazil. living in London

 

O que se esconde atrás dos objetos?

 

Histórias, sujeira, marcas, impressões digitais, pertencimentos, escolhas, identidade, personalidades...

 

Os sapatinhos de bebê me impôs um desafio... estar diante de algo relacionado à criança, mesmo sendo difícil para mim, desde que me tornei mãe à dois anos atrás.

 

Quando vi os objetos pela primeira vez, ainda nem tinha sido convidada para participar do projeto, a primeira coisa que reparei foi que haviam muitos objetos pertencentes a crianças.

 

Não gosto de pensar sobre o que essas crianças provavelmente vivenciaram... e o quanto isso me soa sofrido, afinal, eu tenho o espírito de proteger e cuidar de duas crianças que gerei e só de imaginar que elas possam sofrer já me faz chorar...

 

Assim, com esse sentimento materno tão a flor da pele, que não quis me permitir pegar um objeto que já tinha pertencido a alguma criança, até que vi tudo isso como desafio.

 

Um par de sapatos rosa claro que provavelmente serviria na minha filha de 6 meses... não experimentei e nem quis experimentar, não deixei que meus filhos tivessem acesso aos objetos. Para proteger... como sempre faço.

 

Duas gotas de um liquido amarronzado estão presentes naqueles sapatos... esse liquido, não parece sangue. Penso que seja um pouco de achocolatado que tenha derramado de uma mamadeira qualquer.

 

Esse liquido amarronzado, que para mim é achocolatado, me levou diretamente para essa possibilidade de viagem.

 

E não posso continuar a escrever, pois estou sensível demais. Frágil demais para aprofundar em uma viagem de uma criança que chegou. Mas que talvez tenha as consequências dessa viagem para sempre em sua vida.

 

Bebês não sabem fazer escolhas. Talvez por isso, somos tão sensíveis a eles. Achamos injusto eles serem submetidos a esse tipo de “jornada” (por jornada, entenda jornada do destino).

 

Mas a presença desse sapato, me fez imaginar a cor da pele dessa bebê, como são os seus cabelos, se teve fome, sede, se ainda tem sua mãe... quanto desse leite ela tomou. Isso não me faz mais forte, me enfraquece. Isso não me faz mais próxima, me faz mais distante.

 

What is it in your life that you think you have in common with the person who once owned this object? We have children (or a child). We love them. I know she or he love her because they brought her with them. They wish the best for her.

 

Who do you think owned this object? Describe the person—the age, gender etc. A baby. Probable under a year old. Female.

 

Under what circumstances do you think it was left behind? Was it intentional? Children’s shoes are not very necessary, once they don’t know how to walk yet. It was probable left behind, because it is not a very necessary object.

 

What objects would you take with you if you only had a back-pack and had to make a long, uncertain and possibly dangerous journey and it was doubtful you were going to be able to return to your home? Why would you bring this object? Documents, warm clothes, painkillers, mobile phone, some food

 

Who do you know who has made such a journey? In the same circumstances, no.

 

Was there a moment when you had a profound insight? What were the circumstances? Where were you? What triggered the thought? What were you thinking when you were photographed? My relationship with that object.

 

What feelings did you have when you first had the object; after a couple of weeks did this change? I rejected it from the beginning, when I first saw the objects, I didn’t want something related with children, because of this moment I’m living in my life now. After a couple of weeks, I accepted the fact that that object and me had things in common.

 

Why did you choose this object? Because I have a child who it would possibly fit on, and at the moment, my mind is very full of children and my relationship with the motherhood.

 

Have your thoughts about people feeing conflict and/or seeking a better life changed since you have been carrying this object? In what way? What did you think before? What do you think now? The object brought me closer to those people. I never had the opportunity to imagine the situation they were put in and when I was with the object, it made me think about it.